terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estórias Pessoais - Maria Luísa Oliveira, 1978-2005(III) – Quentes e Boas!!

 

 

1979 - QUENTES E BOAS!...

Luísa Oliveira - AdministrativaEm Outubro de 1979 houve necessidade de libertar ficheiros de recém-nascidos sujeitos à vacinação BCG e as fichas de vacinação com mais de x anos foram retiradas, colocadas em sacos plásticos pretos, bem amarrados e colocados nos contentores de lixo doméstico.

Num dia chuvoso de Novembro desse ano um casal ainda jovem, muito bem vestido, dirigindo-se ao guichet do SLAT, pediu para falar com o Director do serviço. Estiveram fechados no gabinete cerca de 15 minutos e quando saíram não me pareceram mais contentes do que à chegada.

Como estávamos prestes a fazer o intervalo para o almoço, o Director aguardava pela esposa (enfermeira) e por mim a quem dava boleia, movimentando-se cabisbaixo, com passadas largas de um lado para o outro, à frente do guichet.

Quando entrámos no carro, sentia-se uma forte tensão no ar que não passou despercebida à enfermeira. Instado por ela a dizer o que se passava, ficámos a saber que o casal de advogados tinha reclamado o facto de fichas do SLAT com os seus nomes e o do filho estarem a circular na via pública, depois de terem servido para enrolar castanhas, que um senhor vendia à entrada do Jardim das Portas do Sol.

À medida que o Director relatava o facto agitadamente, os nossos olhos esbugalhavam enquanto os queixos pendiam de pasmo e sobressalto. “E agora?” Perguntava-me eu. “O que vai acontecer? Eles vão levar-nos a tribunal por causa disto?”

A resposta veio logo a seguir por parte da enfermeira Maria Augusta. “Fica tranquilo. Vamos almoçar e a seguir dispensas-me a mim e à Maria Luísa e nós vamos às Portas do Sol falar com o senhor das castanhas”.

Depois do almoço, fomos pedir as fichas de vacinação de volta mas o senhor não quis cooperar.

Lembram-se do texto anterior sobre os impressos bonitos do SLAT? Pois bem, as fichas de vacinação além de serem impressas a vermelho, eram do tamanho A5 e tinham uma densidade adequada para serem arquivadas de pé – não eram tão grossas como a cartolina nem tão frágeis como o papel de 80g.

Tudo isto foi-nos dito, embora com outras palavras pelo empresário das castanhas assadas: “Minhas senhoras, este papel é meu. Achei-o e preciso dele para o meu trabalho. Além disso já tem o tamanho e a consistência certa para fazer os canudos para levar as castanhas quentes. Onde é que eu vou embrulhar as castanhas?!”

Já em desespero de causa, a enfermeira Maria Augusta perguntou-lhe se ele devolvia as fichas se ela lhe desse em troca papel para as substituir. Atendendo um cliente ele respondeu com pouca convicção: “Só vendo…”

Lá fomos nós para casa ver se achávamos papel que agradasse ao vendedor. Não foi fácil desapegarmo-nos de um monte de revistas que tínhamos acumulado – Teleculinárias, Burdas, Turbo, Life, Time e Hollas! O vendedor de castanhas, mesmo assim, achou pouco mas cedeu.

Voltando ao SLAT fomos para as traseiras da vivenda queimar as fichas de vacinação.

Estávamos em 1979 e, com este episódio, os nossos pensamentos lançaram sementes que, bem germinadas ao longo dos anos, deram frutos. Entre eles, e falando apenas no plano físico: a banalização das máquinas de obliterar documentos, a separação de lixos para reciclagem e, se calhar, até a criação da Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE)!...

Maria Luísa

Novembro de 2011.